Manifestações populares têm semelhanças nos dois países.
Mas conjuntura e modo como governos lidam com protestos são diferentes.
“Acabou o amor, isso aqui vai virar a Turquia.” Há pouco mais de duas semanas, quando o bordão agitador tomou conta das ruas do Brasil invocando um levante de proporções que poucos poderiam associar ao histórico recente do país, os versos poderiam soar presunçosos ou humorísticos.
(Foto: Reuters)Na borda fumegante das revoltas árabes, a Turquia figurava nos principais noticiários do mundo exibindo grandes manifestações populares violentamente reprimidas pelo governo. As proporções dificilmente se equiparavam. Mas isso mudou.
Em poucos dias, as ruas brasileiras viraram um caldeirão. Houve repressão, algumas com truculência comparável às praticadas pelo governo do premiê turco Recep Tayyip Erdogan. Houve resistência, predominantemente pacífica, assim como a que prevalece na Turquia. E houve descontentamento expresso em cânticos, cartazes e ações que mudaram o cotidiano e a paisagem das grandes cidades, chamando a atenção da imprensa internacional com vitalidade semelhante à das manifestações turcas.
As similaridades de contexto e circunstância vão muito além do formato das manifestações, que bebem nas fontes de outros movimentos, como Occupy Wall Street, dos Estados Unidos, e dos Indignados, da Espanha. O uso da máscara de Guy Fawkes como símbolo de sabotagem é só um dos diversos exemplos que remetem às agitações recentes que pipocaram pelo globo.
Mas Brasil e Turquia têm muito mais em comum. São democracias recentes que passaram por um período de crescimento econômico e de inclusão social. As novas expectativas das populações de ambos países geraram um turbilhão de contestações que chacoalham as duas sociedades. Alguns pontos são intercaláveis. Se os manifestantes turcos temem a influência cada vez mais poderosa de um governo islâmico, os brasileiros contestam propostas de lei de cunho religioso, como o projeto de “cura gay” e o estatuto do nascituro.
Uma questão pontual na Turquia – o projeto de construção de um shopping center sobre uma das poucas áreas verdes de Istambul – foi o estopim para os protestos naquele país. Assim como a questão do aumento das passagens do transporte coletivo fez eclodir a onda de manifestações no Brasil. Entre as mais contundentes contestações da população turca, está a execução de megaprojetos de construção pelo governo, exatamente do mesmo modo como as obras para a Copa do Mundo fomentaram descontentamento nas ruas brasileiras.
Com tantas similaridades e com a conexão direta cantada nas ruas, as comparações ficaram tentadoras. Mas as associações têm limite.
“O que está em jogo no Brasil não são projetos antagônicos de estado. São diferenças sobre o que a população quer em termos de legislação, mas não é uma disputa pela alma e pelo coração do sistema político brasileiro. Se vai ser um estado laico ou se vai ser um estado religioso. Na Turquia é. Aqui no Brasil, os manifestantes estão questionando a falta de representatividade desse sistema. Na Turquia, é um embate entre governo e oposição pelo projeto de estado. É um jogo muito mais violento, muito mais perigoso. A democracia não corre risco no Brasil”, avalia Maurício Santoro, doutor em Ciência Política.
“A gente se empolga com as comparações. Há realmente muitas coisas em comum, inclusive historicamente entre os dois países. Mas a questão na Turquia está muito mais polarizada, e o governo em uma postura muito mais confrontacionista. Além disso, as próprias reivindicações são muito diferentes. Essas comparações podem ser feitas em um nível muito inicial, apenas”, diz Monique Sochaczewski, doutora em História, Política e Bens Culturais pela FGV-Rio.
Antagonismo
Santoro, que atua como assessor de direitos humanos no escritório brasileiro da Anistia Internacional, desfez as malas no domingo (23). De volta ao Rio no olho do furacão das manifestações brasileiras, havia passado uma semana em Istambul, onde presenciou o clima de divisão.
“Cheguei no domingo (16) a Istambul. Na madrugada anterior, a polícia havia despejado todo mundo que estava acampado na Praça Taksim (epicentro das manifestações turcas). No mesmo dia, houve um comício de simpatizantes do governo, que a mídia divulgava como tendo um milhão de pessoas. Não tinha um milhão. Mas realmente tinha muita gente, talvez 200 mil”, conta.
A divisão de posicionamento na Turquia é uma das diferenças mais marcantes em relação aos protestos brasileiros. Metade da população, mais religiosa e concentrada nos bairros pobres das cidades, apoia com veemência o governo de Erdogan, enquanto uma outra metade, de valores mais laicos, ocidentalizados, que ocupa os lugares mais nobres, é quem participa das manifestações de oposição.
“O turista que vai para a Istambul mais europeizada, dos bulevares, dos cafés, dos restaurantes de luxo, vai ter a sensação de que está havendo uma insurreição contra o governo. Se esse mesmo turista só ficar na cidade velha, visitar as mesquitas, os bazares, é um outro país”, conta Santoro.
Monique – autora da tese de doutorado “O Brasil, o Império Otomano e a Sociedade Internacional”, que capta as similaridades e diferenças entre o Brasil imperial e o império islâmico cujo centro era o território atual da Turquia –, coloca a divisão em contexto histórico.
A Turquia, que nasceu com o projeto de laicização e ocidentalização imposto por Kemal Ataturk, que tomou o poder em 1923, passou o século XX intercalando ditaduras e democracias parciais que proibiam os partidos islâmicos. “Durante muito tempo, os religiosos se sentiram lesados por ter um governo secular impondo suas regras”, explica a historiadora.
Do G1 Rio


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