Em 1° mesa, Tezza e Carpinejar falam sobre as armadilhas da escrita literária

24/out/2013 . 10:01


Festa Literária Internacional de Cachoeira acontece até domingo (24).
Evento abriu os debates com o tema ‘Enfrescar o Cotidiano’.

“Eu, sendo feio e desengonçado, só tinha uma alternativa na vida: ser irreverente. A irreverência é o estado mais avançado do feio, quando as pessoas não lhe chamam de feio, mas de irreverente. Escrevo para me inventar. Sabendo quem eu sou, das minhas deficiências. Meu pai me chamava de Wolverine. Acho que era porque tinha a capacidade de me regenerar. Uma vez perguntei onde estavam as garras de Wolverine e ele falou que as garras são as palavras, você se agarra nelas para sobreviver. Eu sobrevivi à adolescência, às drogas, ao desemprego, a separações, a pantufas… sobreviver a pantufas é muito difícil. Uma mulher com pantufas, por exemplo, é algo terrível”.

Flica

(Foto: Egi Santana/G1 BA)

Assim se descreve o escritor Fabrício Carpinejar, que, junto ao romancista Cristóvão Tezza, abriu as mesas da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira), no recôncavo baiano, nesta quarta-feira (23), motivados pelo tema proposto: “Enfrascar o Cotidiano”.

Perguntado pelo mediador, Jackson Costa, sobre os motivos que o levaram para a literatura, Cristóvão Tezza foi direto. “Escrever é uma armadilha. Começa como uma grande festa. O ato de escrever começa com você, você vai se definindo ali, descobrindo você e os outros e, em um dado momento, não consegue mais voltar. Me identifico tanto com o ato de escrever que não me imagino fora dele. A infelicidade produz a literatura e a literatura produz a felicidade”, confessa ele, que também é contista.

Quase na mesma percepção, mas com outras palavras, Carpinejar insere a sua ideia sobre o tema. “Acho bonito e poético o quanto o escrito é incompetente. Como ele é incompetente para entender a si mesmo, acaba se doando mais, vai atrás da vida para ser completo”, diz, entre as piadas e conversas sobre o universo feminino. Segundo ele, a literatura requer provocação. “A gente precisa se aceitar, se assumir como a gente é. Se quer ser agradável, vai ser totalmente neutro e inofensivo. O que precisa é ter opinião, mas sempre como uma mente desconfortável, provocadora, porque só quem provoca se sente vivo”, avalia.

Uma pergunta da plateia emocionou Carpinejar. Questionado sobre a inspiração que o levou a escrever um texto onde fala sobre as vítimas do incêndio na boate Kiss, no Rio Grande do Sul, o escritor disse: “Na verdade, Santa Maria foi um ensaio do apocalipse. Todo mundo teve esse apocalipse. Na verdade, não foi um texto, mas uma transposição emocional. Foi um texto que tive que me socorrer pelo poeta para suportar. Esses textos são mais delicados, em que a gente consegue, a partir de um detalhe, explicar o conjunto. Como exemplo, recentemente fiz um texto sobre velhice a partir da barra de ferro que você coloca no banheiro. Toda casa que tem aquela barra é uma casa em que o filho cuidou do pai ou da mãe”.

‘O Filho Eterno’ e o preconceito

Em outro momento, Cristóvão Tezza falou do processo de criação de um dos seus livros mais famosos, “O Filho Eterno”, prêmio Jabuti de melhor romance em 2008. Na história, um pai encara os desafios de criar um filho com síndrome de Down e passar por cima do seu próprio preconceito. Assim como no livro, Tezza também teve um filho com a síndrome.

“Em 1980, meu primeiro filho nasceu com Down. Eu era alimentado por sonhos de mundo sem fronteiras, amor livre totalizado, toda aquela coisa dos anos 1960, amante da natureza e tal. Isso era a minha concepção de mundo. Aí o primeiro filho… O primeiro ‘diferente’ que encontrei na vida, senti um soco. Por mais que seja baseado em fatos da minha vida, a literatura vai sendo autônoma. E livro tem o narrador, que já sabia a história e vai e volta no tempo. Demorei mais de 20 anos para começar a escrever. A ideia de escrever sobre isso nem se passava pela minha cabeça, depois, fiquei um ano e meio [escrevendo]. Foi um livro muito difícil, porque era uma autoficção, que usa fatos da minha vida. Estava muito inseguro porque não esperava o sucesso, achava que ia levar ‘pau’. Ele acabou pegando leitores que não eram literários”, conta Tezza.

“A grande jogada do livro é que o pai encarna o preconceito. Tem uma cena que o pai está com o filho e tenta procurar o ângulo que não é da síndrome, para que não parecesse, um ângulo que pudesse apresentar aos amigos. Ter essa crueldade consigo liberta. E o texto assume a imperfeição. É nobre assumir a nossa imperfeição” opina Carpinejar, após se dizer orgulhoso pela obra de Tezza.

 

Do G1 BA

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