Falta de cuidado com a saúde mental leva médicos à depressão, dependência química e ao suicídio

27/mar/2014 . 8:03


Especialistas se reúnem em Nova Lima para I Jornada Brasileira de Saúde Mental dos Médicos, nos dias 28 e 30 de março.

Autossuficiência é a palavra que pode sintetizar a dificuldade que o médico tem de procurar ajuda quando adoece. No livro, ‘Médico como Paciente’, a autora e doutora em psiquiatria Alexandrina Meleiro cita o benefício da ignorância como um fator que protege a pessoa leiga de compreender o que vai lhe acontecendo e permite que esse paciente acredite na palavra do médico. Nesse contexto, sentimentos como onipotência e vergonha fazem com que muitos profissionais assumam a automedicação.

Saúde

As consequências são variadas, mas quando o assunto é saúde mental, vemos a categoria amargar incidência alta de dependência química, depressão e taxa de suicídio. No Brasil, essa discussão ainda é tímida, mas os profissionais da saúde terão a oportunidade de trocar experiências na ‘I Jornada Brasileira de Saúde Mental dos Médicos’, promovida pela Academia Mineira de Medicina nos dias 28 a 30 de março, no auditório do Instituto Biocor, em Nova Lima.

Psiquiatra, coordenador da Comissão de Atenção à Saúde Mental dos Médicos, membro emérito da Academia Mineira de Medicina e idealizador da I Jornada Brasileira de Saúde Mental dos Médicos, José Raimundo da Silva Lippi lembra que as pessoas podem alcançar um nível intelectual muito grande, mas mesmo assim ser emocionalmente frágil. “A saúde mental é um estado que vai sendo alcançado através da capacidade que o ser humano tem de tolerar níveis cada vez maiores de tensões e de frustrações. O homem saudável não é aquele que vence as frustrações, porque elas não são elimináveis, mas sim o que tolera bem os níveis de decepção”, explica.

O médico afirma que quando o estresse está acima do suportável para a pessoa, se ela não procurar ajuda, os descaminhos podem ir da ansiedade ao suicídio. “Quando esse estresse supera o nível que o organismo resiste, os sinais começam a aparecer. Pode redundar em não dormir bem, perder o apetite ou ter apetite exagerado, diarreia, dores que são suportáveis para outras pessoas, mas são muito grandes para os que estão com equilíbrio emocional desorganizado”, salienta.

Para ele, os médicos são motivados pelo desejo de salvar vidas e a Jornada quer chamar a atenção não só da classe médica, mas também da população para a peculiaridade da profissão e os riscos que envolvem esse lavor. “Falta de condições de trabalho, excesso de carga horária, a tensão da relação médico-paciente são alguns fatores que aumentam a vulnerabilidade do médico em relação a outras profissões. É alguém que precisa conviver com a frustração de não ter salvado uma vida. Às vezes, por imaturidade ou por se considerar um ‘semideus’ sofre mais que os outros”, enfatiza. Lippi acredita que os profissionais precisam se livrar das amarras da onipotência de acharem que sabem de tudo, de deixar a vergonha de lado e procurar ajuda. “Nenhum médico é obrigado a saber toda a medicina, os colegas estão aí para isso”, diz.

Lippi afirma que a depressão é a doença mental mais comum entre os médicos, inclusive entre os psiquiatras. “Todos são suscetíveis a patologias de ordem mental, principalmente aqueles que não se cuidam. É importante lembrar que o remédio cuida do sintoma, mas as causas precisam de atenção na psicoterapia. O médico pode ser um bom ‘receitador’, mas se não souber o que o cliente tem, não vai resolver o problema”, explica. Por isso, a automedicação não deve ser vista como solução.

Suicídio
“Os médicos se suicidam cinco vezes mais que a população geral”, afirma a psiquiatra Alexandrina Meleiro, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), coordenadora da Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio da ABP e membro do Grupo de Atenção da Saúde Mental do Médico. Apesar de ser uma atitude drástica, a Organização Mundial de Saúde (OMS) vem alertado para o aumento da incidência na taxa de suicídio: um milhão de pessoas se mata no mundo anualmente ou uma morte a cada 40 segundos. No Brasil, observa-se um crescimento de 30% no suicídio entre jovens do sexo masculino nas últimas décadas. Entre os médicos, segundo Alexandrina, os mais vulneráveis estão na faixa etária de 35 a 50 anos.

Suicídio tem prevenção. Isso por que a quase totalidade dos casos – 99% – está associada a um transtorno psiquiátrico. A saúde mental é negligenciada por motivos que vão desde a falta de uma rede de apoio organizada para atender o paciente, no caso do Brasil, até não ser reconhecida socialmente como doença em muitos casos. No senso comum, por exemplo, a depressão é confundida com episódios de tristeza e desventuras da vida. Todo esse contexto de preconceito, falta de informação e tabu agrava a busca por ajuda quando o doente é o médico. Problemas de ordem mental ainda são vistos como motivo de vergonha e assunto para – se for para conversar – que seja baixo para ninguém ouvir. Enquanto isso, pessoas têm suas vidas desestruturadas, muitas tentam se matar para amenizar o sofrimento e outras tantas conseguem.

O suicídio é um tema tão complicado que é estimado um número de vítimas duas ou três vezes maior em razão da subnotificação ao registrar a causa da morte. Curiosamente, no caso de médicos, a psiquiatra Alexandrina Meleiro aponta em artigo intitulado ‘Suicídio na população médica: qual a realidade?’, publicada na edição deste mês da Revista Brasileira de Medicina, uma situação contrária. “Na população geral, existe uma tendência de o médico não registrar que a causa da morte foi por suicídio. Geralmente, registra-se a causa externa da internação, como, por exemplo, queda de altura, envenenamento, intoxicação exógena (excesso de remédio). Um levantamento de atestados de óbitos feito pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) mostrou que, quando a profissão da vítima era a medicina, a palavra suicídio aparecia. Uma das hipóteses é que, por se tratar de um colega, o rigor da notificação é maior. E aí fica a pergunta: será que, de fato, os médicos se suicidam mais ou houve um zelo maior quando se tratava de médico? A resposta eu não sei”, problematiza a psiquiatra.

Alexandrina Meleiro afirma que outra razão para a subnotificação na população geral é que os seguros de saúde e seguros de vida geralmente não cobrem situações de ato voluntário contra a própria vida. “É comum na prática médica registrar a causa externa para proteger a família da vítima”, explica.

O levantamento do CREMESP publicado em 2012 mostra também que, entre as causas externas de morte de médicos em São Paulo, o suicídio aparece em segundo lugar: 21% no caso das mulheres e 18% em homens (veja gráfico). Em primeiro, está o acidente automobilístico, mas para Alexandrina Meleiro, paira uma dúvida: “Foi um acidente de fato ou a vítima usou o carro como meio de suicídio?”, questiona. “Temos um alto índice de mortes por acidentes automobilísticos entre os médicos jovens e não há diferença entre os gêneros. Há um quadro autodestrutivo em que indivíduo teria alguma intenção suicida, são os chamados ‘autocídios’”, explica.

Por Valéria Mendes/Saúde Plena 

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