Sobreviventes de conflitos, atacantes bósnio e nigeriano dão a volta por cima e se enfrentam novamente após duelo pelo título do Inglês durante toda a temporada
Os problemas que a vida impôs a Dzeko e Moses indicavam que dificilmente estariam nas condições de astros e referências de Bósnia e Nigéria na busca por uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo.
(Foto: Reuters)
O caminho dos dois esteve indiretamente cruzado desde o ano passado, quando o Manchester City, defendido pelo bósnio, e o Liverpool, que tem o nigeriano no elenco, competiram até as últimas rodadas pelo título do Campeonato Inglês. Entretanto, mais do que briga por títulos ou por posições, o que está em jogo vai além. Forçados a deixar seus lares por causa de guerras religiosas e políticas, os atacantes não deram as costas para suas nações. E neste sábado, na Arena Pantanal, a partir das 19h (horário de Brasília), pelo Grupo F, mostrarão a seus países e ao mundo que um filho da terra jamais foge à luta.
Uma família destruída
Victor Moses nasceu na cidade de Kaduna, ao norte da capital nigeriana Abuja. Seu pai era um pastor cristão e liderava uma igreja mesmo consciente de que toda a família corria risco de vida por causa dos constantes conflitos religiosos que até hoje causam milhares de mortes. Grupos extremistas muçulmanos não aceitam a opção da minoria e apelam para assassinatos e atentados terroristas.
A convicção fez com que a família pagasse o preço mais alto. Na ingenuidade dos 11 anos, o garoto soube que seus pais foram mortos por causa dos conflitos. Sua vida também estava em risco. Em uma semana, parentes o enviaram para a Inglaterra. O atacante não tem nenhuma foto dos familiares. As lembranças, porém, ficarão eternamente intactas dentro de seu coração.
Na última terça-feira, mais de 20 pessoas foram mortas em um atentado feito em um local em que torcedores se juntaram para acompanhar a Copa do Mundo. Nenhum grupo reconheceu a autoria, mas o líder da facção islamita radical Boko Haram, Abubakar Shekau, já descreveu o futebol como uma perversão ocidental que busca afastar os muçulmanos da religião. Logo o futebol. Logo o esporte que transformaria a vida de Moses e que o faria retomar as relações com o país, e ainda transformá-lo em uma espécie de herói nacional.
Moses era tratado como um menino de ouro quando jovem na Inglaterra por causa de seu talento com a bola. Ele se formou jogando nas categorias de base da seleção britânica, e jornais noticiavam que seria o futuro do English Team. Mas na hora de escolher por qual país jogaria profissionalmente, suas raízes falaram muito mais alto. A Nigéria foi a eleita.
- Ele não virou as costas para seu país. Ele escolheu a Nigéria, e isso é muito importante, pois voltou para casa. É incrível. Dzeko também. O grupo da Bósnia tem feito o povo feliz depois de tempos difíceis. É isso o que o futebol faz. Especialmente para nosso país – disse o jornalista nigeriano Ololade Adewuyi.
“Medo”: Palavra inexistente no vocabulário de Dzeko
Quando foi contratado pelo Manchester City, em 2011, Dzeko disse à imprensa local que havia pouco o que temer na vida depois de todos os acontecimentos da infância e juventude. O cenário realmente era assustador. No auge de uma guerra que envolvia a divisão da antiga Iugoslávia com interesses políticos e religiosos, o atacante viu sua casa ser bombardeada. A família se mudou para a residência dos avós do jogador. Segundo conta, 15 pessoas viviam em um apartamento de 35m². O medo era o sentimento mais constante. Provavelmente o único tipo de emoção. Parentes e amigos foram mortos, e o barulho de armas de guerra tornou-se a canção de ninar das crianças. Estima-se que mais de 100 mil pessoas tenham perdido suas vidas nos conflitos que duraram, oficialmente, três anos – entre 1992 e 1995 -, e cerca de 2 milhões deixaram o país.
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Por Globo Esporte


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