Após perder a vaga na Marussia por falta de patrocínio e a chance de disputar pela primeira vez uma temporada na Fórmula 1, o piloto baiano Luiz Razia faz um desabafo exclusivo ao ESPORTE CLUBE.
(Foto: Andrew Hone | Getty Images)Em uma carta entregue à reportagem (leia abaixo o texto na íntegra), Razia reclama da falta de apoio no País e expõe a a decepção por adiar o sonho acalentado desde a infância em Barreiras, onde nasceu.
Depois de estar com todos os planos traçados para estrear como piloto de F1, ele conta que ficou em choque por conta da rescisão contratual comunicada pela Marussia. A ruptura ocorreu porque um dos três patrocinadores obtidos pelo piloto não efetuou o pagamento à equipe dentro do prazo.
Agora, mesmo magoado com a situação, Razia diz que está avaliando convites que recebeu para ser piloto de testes em algumas escuderias. Ele ainda não quer citar nomes, mas fala que está trabalhando nesse sentido, já sonhando com um posto de piloto principal na categoria para o próximo ano.
“Estou confiante que, para 2014, estarei em uma boa posição. Isso que espero”, disse ele ao ESPORTE CLUBE. O baiano afirmou que vai continuar morando na Inglaterra. E disse que, apesar de algumas empresas brasileiras terem demonstrado solicitude após o anúncio da perda da vaga na Marussia, essas manifestações ainda são fracas. “Falta de vontade é uma coisa que não temos”, disse. Vale destacar que, quando o piloto usa o verbo no plural, refere-se também ao pai, Luiz Tadeu Razia, que sempre o acompanha.
Como lado bom da reviravolta que aconteceu com o piloto na sexta-feira passada, ele salientou que continua recebendo manifestações de solidariedade.
“O público está apoiando em massa. Ainda existem muitas pessoas com sentimento de patriotismo, que torcem por quem está representando o Brasil lá fora. Foi confortante ver tantas pessoas se sensibilizarem, por uma situação circunstancial que afetou um esportista brasileiro fora do País”.
Barreirenses dão apoio – Estudante de Direito, Fernando Gomes lamentou o desfecho desfavorável a Razia. “Acho que ele está sofrendo com tudo isto, porque desde criança tem esta meta. Mas nós, brasileiros e barreirenses, com certeza perdemos muito também. Eu já estava me programando para voltar a acompanhar a F-1, porque teria uma motivação forte. Agora torcemos para que ele esteja firme na temporada 2014″.
Ex-piloto de AutoCross, categoria que revelou Luiz Razia em Barreiras, o empresário Carlos Emílio ‘Biro-Biro’ disse que tem duplo sentimento sobre o episódio da Marussia. “Fiquei triste que não deu certo, mas como é uma equipe muito fraca, acho que o Razia teria dificuldades para mostrar sua capacidade”.
Confira a íntegra da carta do piloto:
A pergunta que mais tenho ouvido nos últimos dias tem sido: “Por que isso? O que aconteceu? E minha resposta é uma só: faltou apoio. Fui informado da rescisão do contrato através de um telefonema da equipe e segundos depois já estava na mídia, de modo que não tive sequer oportunidade de falar, fazer um comunicado, nada.
Foi surpresa para todos, inclusive para mim. Se estou triste? Claro que sim! Não é fácil você ver toda uma luta, todo um trabalho, a realização de um sonho conquistado com tanto suor e dedicação ruir, acabar, sem que você tenha, absolutamente, alguma culpa e, o que é pior, sem que você possa fazer NADA.
Sou das pessoas que acreditam que o acaso não existe. Tudo que acontece tem uma razão de ser. E se era preciso enfrentar essa situação, aqui estou e todos que me conhecem sabem que sou tranquilo, dedicado, persistente e queda nenhuma irá tirar-me essa disposição de continuar lutando, sem esmorecer.
Mas não posso deixar de externar minha indignação, minha tristeza, é essa a palavra certa “tristeza”, por saber que o principal ingrediente de todo esse contratempo é o dinheiro, ou melhor, a falta dele.
Tudo seria bem diferente se, aqui no Brasil, tivéssemos o apoio financeiro irrestrito dos grandes grupos empresariais, industriais e por que não governamentais? Vemos, cada vez mais, notícias de financiamentos públicos de toda espécie, até para criação de “blogs”. Então, por que não patrocinar carreiras de esportistas que levarão o nome do país para os quatro cantos do mundo? E posso afirmar que nenhum outro esporte é tão visto, seguido, admirado e durável, com temporada que segue ao longo de quase todo o ano, como as corridas de F-1.
Por que não incentivar, de forma mais efetiva, a viabilidade de patrocínios por grandes investidores? Sei que existem algumas leis de incentivo fiscal, mas onde estão estes beneficiados? Onde foram aplicados seus investimentos? Quem são esses investidores?
No meu caso, especificamente, não tive nenhum – estou falando NENHUM! – ao meu lado. O que consegui veio de fora do Brasil e isso me entristece profundamente.
Sei que na F-1 existe uma espécie de submissão aos interesses financeiros, porém sempre defendi que as equipes deveriam ter independência orçamentária, administrativa e financeira. As coisas, contudo, nem sempre são como queremos. Na maioria das vezes temos que dançar conforme a música.
O que sei, efetiva e verdadeiramente, é que tudo que eu mais queria era levar o nome do meu País pelo mundo afora. Dizer, em cada entrevista, do meu imenso orgulho de ser nordestino e, bem mais do que isso, de ser Brasileiro. Se das mídias sociais tenho recebido dos compatriotas todo incentivo possível (o que muito agradeço e que chega a deixar-me sem palavras), das instituições brasileiras a história é outra, as coisas não têm sido fáceis. Falta o apoio necessário, ou seja, o cruel, mas indispensável, aporte financeiro. Sei que a batalha é dura e os preconceitos são vastos.
Sinto-me absolutamente à vontade para afirmar que não vou desistir tão fácil. Sou persistente e vou continuar batendo em muitas portas. Só preciso encontrar algumas delas pelo menos entreabertas, para que possa mostrar todos os projetos e ideias, certo de que, se as coisas não saíram como planejei, certamente não foi por erro ou displicência de minha parte.
Só posso afirmar que ninguém suja a imagem de uma consciência limpa, e essa eu tenho, pois fiz o meu trabalho e o que estava ao meu alcance. Nada abala a minha confiança de que, caminhando e semeando, com coragem, entusiasmo e inabalável determinação, ao final terei o que colher.
Por Miriam Hermes | Barreiras/A Tarde


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