Dia de São Cosme e São Damião é celebrado com sincretismo na Bahia

27/set/2012 . 12:33


G1 conversou com padre e integrante do candomblé para entender culto. Ambos explicam que o sincretismo foi iniciado no período da colonização.
Por Egi Santana/G1 BA

Nesta quinta-feira (27) é celebrado o dia de São Cosme e São Damião e o G1 conversou com adeptos do catolicismo e do candomblé para entender como essas duas vertentes religiosas cultuam os gêmeos santos, que são considerados protetores dos enfermos e dos profisisonais de saúde.

 

Como é de costume no sincretismo baiano, no candomblé, os santos são equiparados aos Ibejis, divindades africanas que também são gêmeas. Pela forte presença negra na cultura baiana, a festa originalmente católica é mais uma que congrega às missas e aos cortejos elementos de raízes africanas, a exemplo da oferta do caruru de Ibeji, chamado popularmente de “caruru de São Cosme e Damião”, doado nas ruas geralmente como pagamento de promessas alcançadas.

De médicos a santos

São Cosme e São Damião nasceram na Arábia, no século III. Cristãos de família abastada, os dois irmãos gêmeos estudaram medicina e trataram os enfermos da região da Cilícia, onde hoje está a Turquia. Segundo o padre Josevaldo Nascimento, da paróquia São Cosme São Damião, na Liberdade, única de Salvador, os dois irmãos ficaram conhecidos na época por conta de suas habilidades em tratar as doenças tanto com a medicina quanto com a “palavra de Deus”.

“Eles começaram a ganhar reconhecimento na região, entre os cristãos e entre os pagãos, o que causou preocupação por parte do imperador da época, que era romano e cultuava deuses não cristãos”, explica. Segundo o pároco, na época, os irmãos Cosme e Damião foram levados ao imperador, que os obrigou a adorar os deuses pagãos. “Eles se recusaram, por serem cristãos e difundirem a palavra do senhor, e foram martirizados por conta disso, por terem representado um perigo aos pagãos”, acrescenta.

Por conta do episódio, a fama dos irmãos já estava tão grande, segundo o estudioso, que a eles foram atribuídos milagres de pessoas curadas de enfermidades, o que fez, no século VI, quando já canonizados, que a igreja construísse a basílica de Cosme e Damião, próxima ao Coliseu de Roma. No Brasil, o culto aos santos veio com os portugueses durante a colonização.

Ibejis

Para os adeptos do candomblé, São Cosme e São Damião são os Ibejis. “Nosso sincretismo começou ainda na época da colonização, quando os escravos eram obrigados a seguir a religião católica. Com inteligência, eles olhavam para as imagens de santos católicos, mas, na verdade, estavam cultuando seus santos e orixás”, afirma o padre Josevaldo Nascimento.

Ainda segundo o religioso, “há um esforço dos adeptos do catolicismo, e também daqueles que cultivam a religião africana, em deixar claro para as pessoas que se trata de cultos diferentes”. Essa diferença é explicada por Tânia Bispo, Maiê [segunda pessoa na hierarquia] da Casa de Oxumarê [Ilé Axé Oxumarê], um dos principais terreiros da capital, tombado como patrimônio material e imaterial da Bahia.

Segundo ela, a história do Ibeji fala de uma mãe que teve problemas na gravidez de gêmeos e chegou a ter dúvidas se os filhos nasceriam com saúde. “Ela fez uma promessa a Oxum, que, se os filhos nascessem, seria doado uma comida de axé, que é o nosso caruru completo, que, além do caruru, tem cana de açúcar, feijão fradinho, pipoca, milho, ovo, farofa, vatapá, frango, abóbora, banana frita, rapadura, abará e acarajé”, descreve.
Em relação aos doces e balas que são doados às crianças, tradição da festa, a religiosa explica que, como o Ibeji é considerado o representante das crianças e dos doentes e pelo fato de que essas iguarias são apreciadas pelos “pequenos”, elas fazem parte da lista de doações.

“É louvável que vivamos em paz entre as religiões e, enquanto católicos, nós consideramos a validade da religião de nossos irmãos africanos enquanto um sistema de fé, mas, tanto nós, quanto os adeptos sérios do candomblé, fazem questão de distinguir os dois campos como sendo de crenças distintas”, retrata o pároco.

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