Um furacão chamado Yoani passou pela Bahia. Furacões caribenhos costumam ter nome de mulher. É a cultura de cientistas e técnicos que varam noites olhando o céu à procura de sinais.
(Foto: Antonio Cruz | Ag. Brasil)De uma hora para outra, de um vento moderado para mais forte, junto com ondas, eles chegam. Hemingway, que viveu e suicidou-se em Havana, escreveu sobretudo isso. O fenômeno natural passa e deixa rastro de danos materiais. Não foi o que aconteceu com a blogueira Yoani Sánchez.
Crítica feroz do regime cubano, foi enfim autorizada a sair da ilha. Passou por Recife, Salvador e Feira de Santana e causou um enorme estrago ideológico, moral e ético naquilo que pensam ser o universo mágico e sólido de uma esquerda brasileira.
No ideológico, foi de elegância mortal. Depois de atacada com palavras e agressões por miúdos sicários nos aeroportos de Recife e Salvador, debitou os despautérios à conta da democracia do Brasil e, com requinte de toureira, deu estocada final: “Gostaria de viver uma democracia dessas no meu país”.
Gabriel “Gabo” Garcia Márquez escreveu que o Brasil era parte do “Gran Caribe”. Fidel Castro, já íntimo de ACM, durante o governo Sarney, na enésima visita ao Pelourinho, foi taxativo: “Bahia é Caribe”. Gabo e Fidel construíram cúmplice amizade durante 50 anos, sempre agarrados aos ideais da velha esquerda.
A doença os está levando. Aos poucos, não juntos, mas com exemplar sofrimento. A história, sempre misericordiosa, oferecerá, aos dois, o regaço do tempo. E o tempo, mestre, poderá salvar esses moços e moças chapas-brancas que pagaram micos vociferando contra uma peregrina da liberdade.
Um dia aprenderão que a verdadeira luta é por democracia, regime que garante a existência e expressão daqueles que não seguem uma cartilha única.
Numa democracia, algo inexistente em Cuba, qualquer pessoa pode gostar ou desgostar de Fidel, Raúl Castro ou da blogueira Yoani. Mas ninguém tem o direito de usar a força para impedir a manifestação de suas ideias.
Por Editorial/A Tarde


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