Há uma semana, Emanuel Scheffer escreveu seu nome na história do vôlei de praia. Aos 40 anos, o curitibano chegou a 149 títulos na carreira, superando o americano Karch Kiraly, então recordista de conquistas na modalidade, com 148, número que consta no Guiness Book, o Livro dos Recordes.
(Foto: Dave Martin | AP Photo)Dono de três medalhas olímpicas (ouro em Atenas-2004, prata em Londres-2012 e bronze em Pequim-2008) em cinco participações, Emanuel disse, em entrevista exclusiva ao A TARDE, que fará “tudo a seu alcance” para ir a sua sexta Olimpíada, em 2016, no Rio de Janeiro.
Hoje, além de liderar o ranking do Brasileiro da modalidade, ao lado do parceiro Alisson, Emanuel é integrante do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). O maior campeão da história do vôlei de praia falou sobre sua função na entidade, as recentes mudanças promovidas pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) na modalidade (desde julho as duplas que disputam o Circuito Mundial são escolhidas pela comissão técnica da Seleção Brasileira) e a polêmica influência da TV nos esportes.
Há uma semana, você faturou a etapa paulista do Campeonato Brasileiro de vôlei de praia. Com o título, tornou-se recordista de conquistas na modalidade. São 149 na carreira. O que ainda esperar do incansável Emanuel?
Muita disposição para conquistar o bi no Campeonato Brasileiro. Eu e o Alisson estamos na liderança, vamos em busca disso. Mas confesso que a prioridade, meu objetivo primordial em 2013, era obter este recorde que pertencia ao norte-americano Karch Kiraly. Ele tinha 148 conquistas. Hoje, posso me orgulhar em dizer que esse recorde é nosso, o Brasil tem o recordista mundial de vitórias no vôlei de praia. Não sei ainda o tamanho dessa marca. Sei que é história. E quero fazer ainda mais.
É o único jogador do mundo a disputar as cinco Olimpiada no vôlei de praia masculino, desde que o esporte ingressou no programa do torneio (em Atlanta-EUA, em 1996). Está confiante em disputar sua sexta Olimpíada, em 2016, no Rio?
Sou um atleta movido a desafios. Principalmente quando o assunto é Olimpíada. Afinal, é o doutorado dos atletas. O evento onde os melhores estão em ação. É óbvio que quero estar presente, participar desta festa, ainda mais por ser no Rio. Mas ao mesmo tempo já troco experiências com novas promessas. Por exemplo, entre meus treinos, passo informações, chego até mesmo a treinar com jovens atletas que me pedem conselhos.
Você começou a atuar em 1991 e soma 22 anos de carreira. A idade seria problema em 2016, já que estará com 43?
Pois é… Sou um ‘dinossauro’ do esporte. O grande desafio hoje não seria a idade, isso não é problema. Até por que me cuido muito. Mas eu já vi várias gerações passarem, fui me adaptando aos novos estilos de jogo. Atualmente, têm-se muitos atletas altos, sacando mais rápido. Então, eu sempre preciso me adequar. Isso sim, para mim, é uma grande dificuldade. Estar em constante evolução. A idade, não. Sou um tiozinho em forma (risos).
Em Londres-2012, os alemães Julius Brink e Jonas Reckermann venceram você e o Alisson e faturaram o ouro. Um reencontro na decisão em 2016 seria a revanche dos sonhos?
Queria muito, Deus sabe como. Mas não vou ter este gostinho. Infelizmente, o Reckermann se aposentou. Já o Brink resolveu parar esta temporada por questões pessoais. Hoje vejo novas duplas surgirem. Eu acredito bastante no Pedro Solberg e Bruno Schmidt, além de meu parceiro, o Alisson. Tem a dupla da Letônia (Plavins e Smedins) que está forte. E tem aquela: nas Olimpíadas sempre terá uma dupla forte dos Estados Unidos. Isso é fato.
Em julho deste ano, a CBV implantou um novo sistema na definição das duplas que representam o país em torneio internacionais. A escolha cabe, agora, à comissão técnica da Seleção, que separou você do seu parceiro Alisson. Como viu esta mudança? É favorável?
Eu acredito que em todo processo de evolução são necessárias mudanças. Vejo a atitude da CBV e da Letícia Pessoa (técnica da Seleção Brasileira de vôlei de praia) correta. Foi uma ação visando ao Rio-2016. A entidade não quer ver apenas uma dupla boa, ou, então, um jogador em alto nível nos Jogos Olímpicos. A CBV deseja quatro atletas (duas duplas) no topo. É simples: se você jogar apenas com seu parceiro, querendo ou não, há acomodação. O crescimento surge a partir do momento em que você é forçado a se adequar a outro tipo de jogo. Este ano, por exemplo, tal mudança já rendeu novos atletas, promessas. Cito como exemplos o Evandro (22), meu novo parceiro nos torneios internacionais; o Vítor Filipe (22); o Álvaro Filho (22).
Ao contrário de outros esportes olímpicos, o vôlei de praia, na teoria, não necessita de tanta infraestrutura. O que ainda é preciso ser feito pela CBV?
Sem dúvida, investimento nas categorias de base. Se projetos forem feitos para as categorias sub-16, 19, 21 e 23, acredito que, nos próximos anos, teremos uma grande leva de atletas, nomes promissores. Na minha opinião, falta apenas isto para o esporte evoluir ainda mais. Os profissionais já contam com boa estrutura, com patrocinadores etc…
O que achou da aprovação recente da MP do Esporte, que limita o mandato de dirigentes de entidades esportivas a oito anos?
Oito anos é um período aceitável. Não sou tão radical a apoiar apenas dois, como muitos queriam. Afinal, não há dirigente no mundo que possa fazer alguma coisa no mandato tão curto. Quatro anos já dá para fazer algo. Oito, acho ideal. O que não se pode é perpetuar no cargo.
Você é o presidente da Comissão de Atletas do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Fale-nos um pouco mais sobre isso.
A Comissão de Atletas é um fórum em que todos têm a oportunidade de expor suas ideias e levar aos atletas de suas modalidades e dos esportes que têm mais contato. A grande intenção do COB é fazer com que os atletas estejam mais próximos das decisões. Então, eu acabo sendo um interlocutor.
No dia 9 de novembro, o jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria na qual afirma que “o orçamento final dos Jogos de 2016 ainda não foi definido”. Como agora integrante do COB, o que acha disso?
É um assunto que não me compete. Está fora de minha alçada. Mas, em partes, justificável. Pois, como toda obra de grande proporção, volta e meia, novos custos então não esperados, acabam surgindo. Não é legal, mas acho que não irá estragar a festa e a grandiosidade que será o Rio-2016.
No Fórum Nacional do Esporte, em agosto, um assunto muito discutido foi a influência da televisão nos esportes. A CBV, por exemplo, mudou as regras do vôlei de quadra, diminuiu o número de pontos, para se adequar à TV. Acha que deveria haver um enfrentamento maior por parte das federações?
Minha ótica: a TV é muito importante para o esporte. Todos os esportes que estão na televisão têm patrocinadores, e os que não estão têm dificuldade em conseguir outros parceiros. No Brasil, acho que está se criando a cultura esportiva, não só o futebol que está bem consolidado. E, agora, acho que está na hora dos outros esportes se consolidarem. Por um certo momento, acho que os esportes vão estar à mercê da TV. Aí, depois que tiverem um produto forte, criarem credibilidade, vão poder modificar as regras. Infelizmente, é uma coisa natural.
Em 2009, após sete anos de conquistas emblemáticas (dentre elas, ouro em Atenas-2004), você e o baiano Ricardo, surpreendentemente, acabaram com a dupla. O que houve, de fato?
Sempre tivemos um bom relacionamento. Não houve nenhum tipo de problema entre nós. É um eterno amigo. A questão é que eu me casei no final de 2008 (com a ex-jogadora de vôlei de quadra e praia Leila). No ano seguinte, mal a vi. Viajei por nove meses. Eu morava a treinava em João Pessoa e minha esposa, no Rio de Janeiro. Então, não tinha tempo para ela. Conversei com o Ricardo, com a nossa comissão e achamos melhor findar a dupla. Nada além disso.
Hoje, você tem 40 anos. Está há mais de 20 na praia. Praticamente deu o ‘saque inicial’ na areia. Já pensa numa possível aposentadoria?
Passou um filme agora aqui na minha cabeça (risos). Ainda me lembro como tudo começou: o vôlei de praia era esporte exibição no Rio de Janeiro. Jogadores brasileiros e norte-americanos do vôlei de quadra se reuniam e jogavam nas areias. Depois, primeira Olimpíada, Atlanta-1996, e, hoje, está aí. Difícil dizer quando irei me aposentar. Ainda não pensei.
Você sempre foi visto como o jogador mais completo da praia. Quem você apontaria como seu substituto?
Hoje, vejo o Pedro Solberg. Ele levanta, ataca, defende bem. É um grande atleta.
NO PAREDÃO
Na política, Ronaldo ou Romário?
Puxa vida… Na realidade, os vejo como dois ídolos esportivos. Não dá para falar politicamente.
Uma musa do vôlei de praia…
Eita, que agora a Leila (ex-jogadora de vôlei de praia e esposa de Emanuel) vai me matar (risos). Mas acho a norte-americana Wash. Não digo só de beleza, do físico… Ela é tricampeã olímpica, uma vencedora no esporte.
Você torce pelo Atlético-PR, e sua esposa pelo Flamengo. Na decisão da Copa do Brasil, quem leva o caneco?
Putz… Complicou! A partida de ida foi equilibrada. O Furacão é rápido nos contra-ataques. No Maraca, levaremos a melhor!
Na Seleção, Robinho ou Pato?
Difícil, hein? São dois jogadores que precisam mostrar mais para estar na Copa, por exemplo. Hoje, não fazem por merecer.
Aos políticos brasileiros, daria qual recado?
Olhem mais por nossas crianças!
Por Diego Adans/A Tarde


Comente agora
Comente esta matéria