Mais de 3 mil estão na fila de transplante de órgãos na Bahia

3/set/2013 . 13:22


Indicado apenas quando todos os métodos convencionais de cura não apresentam resultado, o transplante de órgãos e tecidos continua lotando as unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente, por falta de doadores.  Setembro é o mês nacional de incentivo à ação e, no Brasil, apenas 30% das pessoas permitem o reaproveitamento de coração, pulmão, córneas, ossos, rins, fígado, partes do corpo humano que, a depender da causa da morte, podem ser transplantadas em outras pessoas. No país 95% dos transplantes são realizados pelo SUS, divididos em unidades públicas e particulares.

transplante

Na Bahia, a maior fila de espera é pelo transplante de rim, assim como em todo o país. Até meados do mês de agosto, 1.110 pessoas sofriam com a espera angustiante em todo o estado, dependendo apenas da boa ação de familiares que permitissem o reaproveitamento dos rins de seus entes queridos falecidos, já que, pela lei, apenas parentes de 1º e 2º grau podem consentir a doação de órgãos e tecidos de pessoas vítimas de parada cardíaca ou morte encefálica.

No caso do transplante de rins, outro fator agravante é a necessidade de compatibilidade entre os tecidos do órgão do doador e da pessoa implantada e esta é uma dos responsáveis pela enorme fila para este tipo de cirurgia, conforme informou Eraldo Moura, coordenador do Sistema Estadual de Transplantes da Secretaria Estadual de Saúde da Bahia (Sesab). “Este é um problema enfrentado em todo o país, não só pela falta de doadores, mas pela complexidade que envolve as condições para a realização da cirurgia”, explicou.

Este é o problema enfrentado pela aposentada Marenize de Jesus, que desde 2004 foi diagnosticada com insuficiência renal crônica e até hoje não conseguiu um rim compatível. Na fila de espera desde 2008, ela já foi chamada sete vezes, mas, em todas as tentativas, os rins dos doadores não foram adequados ao seu. “Nem mesmo minha família pode ajudar, já que todos têm problemas de saúde”, contou Marenize que, pela falta de órgão compatível, realiza hemodiálise três vezes por semana, sem perder a esperança de que ainda conseguirá encontrar um doador de acordo com as especificidades do seu organismo.

No total, mais de três mil pessoas aguardam transplantes no estado, apenas uma pequena parcela das 45 mil que passam pela mesma situação em todo o país.

O transplante de córneas é o mais realizado na Bahia, segundo Moura. Por se tratar de um tecido, o procedimento não depende de compatibilidade entre os doadores para a realização da cirurgia, mas ainda assim, existe uma fila com quase 800 pessoas à espera de doação. Ele explica que a retirada do tecido a ser reaproveitado deve ser feita com até seis horas após a parada cardíaca do doador. “Apenas mortes causadas por tumores no globo ocular, linfomas e leucemia impedem o aproveitamento da córnea”, continuou.

Um dos beneficiados com este tipo de cirurgia foi o jovem Fagner dos Santos Silva, 24 anos, que desde criança apresentava problemas nos olhos, causados por uma alergia. “Eu coçava muito os olhos e isso acabou evoluindo para uma doença chamada de ceratocone, que deixa a córnea mais fina”, explicou. Com a doença, Fagner passou a perder boa parte da visão e precisou passar pelo transplante. “Eu já havia esperado dois anos e meio em Feira de Santana e estava decidido a ir para São Paulo porque a oferta de córnea lá é maior, quando meu pai viu uma reportagem na TV falando sobre a cirurgia em Salvador. Depois daí fiquei só seis meses na fila e consegui o transplante”, contou o industriário que recebeu o tecido em Salvador, nos Hospital das Clínicas, em maio de 2012.

Ele diz que, embora não conheça a família do doador que permitiu que hoje ele enxergue bem, agradece todos os dias pela ação. “Eu mudei completamente meu pensamento sobre doação de órgãos. A gente só passa a ser doador, a pensar nestas coisas, quando passa por uma situação destas.”, comentou.

Desinformação

Para o coordenador do Sistema Estadual de Transplantes, o grande problema na doação de órgãos gira em torno da desinformação. “A pergunta que devemos fazer é: Se você necessitasse receber um órgão para sobreviver, aceitaria a ajuda de um estranho? Se a resposta for sim, porque não permitir a liberação dos órgãos de familiares para a salvação de muitas vidas?”, questiona o coordenador do sistema. Ele explica que muitas vezes os familiares não sabem se o parente falecido queria ou não ter seus órgãos doados e que por isso o assunto gera dúvidas.

Segundo ele, a incerteza diária enfrentada por pessoas que aguardam as longas filas é angustiante. “Elas vivem sem saber se vão ver o dia novamente, porque são casos graves, que não podem esperar por muito tempo. As pessoas que podem ajudar precisam refletir mais sobre isso”, continuou.

E foi pensando apenas no bem estar de quem continua lutando pela vida que o aposentado Edinho Costa Almeida, 58 anos, permitiu que os órgãos do seu filho Fabrício Soares de Almeida, que teve o diagnóstico de morte encefálica em maio do ano passado. “Se a gente não consegue manter a pessoa aqui, do nosso lado, por que não ajudar alguém que está passando por dificuldade, lutando pela vida?” questionou o aposentado, que com a permissão conseguiu ajudar quatro pessoas, através da doação do coração, fígado, rins e córneas de Fabrício.

Terceiro maior banco de medula óssea

Mais rápido e fácil de fazer a doação, a retirada de parte da medula óssea, realizada apenas em pessoas vivas, também pode ajudar a salvar vidas. O transplante pode ajudar na reconstituição de outros órgãos deficientes e no tratamento de leucemia, linfomas, mielomas, entre outros problemas no sangue. Para este tipo de procedimento também é necessária a compatibilidade genética entre doador e receptor e por isso os bancos de coleta realizam inicialmente o recolhimento de 5 a 10 ml de sangue do doador para a análise de suas características genéticas. Essas informações ficam armazenadas em um banco de dados, aguardando o surgimento de demanda, e caso haja paciente compatível a espera de transplante, o doador é chamado para realizar a coleta definitiva.

De acordo com Eraldo, o Brasil tem o terceiro maior banco de medula óssea do mundo, perdendo apenas para os EUA e a Alemanha. “Existe um intercâmbio de medula muito forte entre os países, os bancos trocam informações e material, conforme a demanda e a compatibilidade que surgem”, afirmou.

Outra novidade na área de doação deste órgão é a disposição do cordão umbilical por partes das mulheres no pós parto, já que esta parte do corpo humano contém células da medula óssea. “O Hospital das Clínicas está construindo um Banco de Cordão Umbilical para que este tipo de material fique a disposição de quem precisa”, anunciou.

Embora algumas mães estejam optando por congelar o cordão umbilical para recorrer a ele, futuramente, caso a criança apresente algum problema de saúde e precise de tratamento com células da medula óssea, Moura diz que a doação deste material para pacientes que realmente estejam necessitando é a melhor opção. “A probabilidade de uma pessoa desenvolver um problema que dependa destas células e quase nula”, garantiu.

 

Por Tribuna da Bahia

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