Servidora pública lança filme sobre adoção irregular de crianças na Bahia

29/nov/2012 . 12:40


Marta Torres ficou dois dias em Monte Santo para narrar situação em vídeo. Vida das crianças é “feliz”, diz. Elas foram retiradas de casa por Justiça.

A servidora pública Marta Torres decidiu conhecer a realidade da família de Monte Santo, que vive o drama de tentar retomar a posse dos cinco filhos adotados, pelo relato dos pais biológicos e de seus amigos. Fotógrafa amadora, pegou sua câmera semiprofissional e se hospedou na cidade, situada no noroeste baiano, entre os dias 27 e 28 de outubro. A viagem resultou no documentário “Ser-Tão Inocente: As Crianças de Monte Santo”, que lançou na quarta-feira (28), no Cine XIV, no Pelourinho, localizado no Centro Histórico de Salvador.

Foto: divulgação

 

Apesar de atuar como defensora pública da Bahia, Marta ressalta que resolveu ir ao local no papel de “cidadã” e usou como método não ter acesso às notícias sobre o caso para evitar uma opinião preconcebida antes das filmagens.

“Deixei contarem como eu acho que todo mundo quer saber. Como é que aconteceu, como é a vida deles, como as crianças eram tratadas, se são felizes. A sensação que tive é que a gente é pobre e eles são ricos. As crianças vivem felizes, correm na rua descalças, sorrindo, brincando. Você não vê criança obesa, estressada ou depressiva. Uma vida boa, não é ruim, não”, relatou.

A produção foi finalizada com apoio voluntário de amigos, entre eles, o cantor e compositor Dão, que é a voz de parte da trilha sonora, além do poeta Robério César Camilo, do cordelista Osmar Simões, da banda Sertanília, do músido Anderson Cunha, entre editores de vídeo e áudio. Marta conta que, no vídeo, a história é construída através de relatos dos pais, vizinhos e de uma prima das crianças. “Foi tudo muito natural. Eles respondiam o que eu ia perguntando. Esse caso está aí desde o ano passado, mas a decisão da Justiça foi realmente muito lenta para uma injustiça tão rápida”, opina ela, que inicialmente pretendia retratar a situação sob o ponto de vista jurídico. O making off do documentário pode ser acessado pelo Youtube.

O casal Silvânia e Gerôncio, pais das crianças, contaram que elas foram retiradas de casa em junho de 2011, pela polícia, após ordem do juiz Vítor Manoel Xavier Bizerra, que na época atuava em Monte Santo. Dos cinco filhos do casal, dois mais velhos foram levados para Campinas. Os outros foram para Indaiatuba, cidade vizinha, ambas em São Paulo.

Decisão favorável

O juiz Luiz Roberto Cappio, de Monte Santo (BA), determinou na terça-feira (27) que as crianças baianas voltem a viver com os pais biológicos. O processo de adoção das crianças ocorreu em meio a diversas irregularidades, segundo o juiz. O caso foi denunciado no programa Fantástico no mês de outubro.

O juiz Roberto Cappio determinou que as crianças sejam retiradas das famílias adotivas e sejam levadas para um espaço de acolhimento provisório, onde recebam acompanhamento de psicólogos para que possam se readaptar ao convívio com os pais biológicos, que também irão para esse espaço. A readaptação do convívio deve durar, no mínimo, 15 dias, conforme a determinação. Depois, as crianças retornam para a cidade de Monte Santo, no sertão baiano, de onde foram levadas.

Incêndio

A casa em que dormia o pai das cinco crianças adotadas ilegalmente na cidade de Monte Santo foi incendiada na quarta-feira (21). A polícia investiga se a causa das chamas foi criminosa, mas adianta que o pai e o dono da casa ainda não compareceram à unidade para prestar depoimento sobre o caso.

“Segundo informações, foi na casa de um primo do pai, em que ele pernoitava na maioria dos dias da semana. Precisa [a polícia] saber se o incêndio foi criminoso ou não. Pode ter havido represália em razão das instituições públicas estarem prestando apoio a ele e a família dele, e isso vai de encontro a muitos interesses contrários locais. Mas, também pode não ser nada. Pode ter sido um acidente”, explicou o magistrado Roberto Cappio.

De acordo com o delegado de Monte Santo, Elysio Ramos, que apura o caso, ninguém estava na casa no momento do incêndio.

Revogação da guarda

O Ministério Público do Estado da Bahia protocolou, na segunda-feira (19), um requerimento solicitando a revogação das guardas provisórias das cinco crianças adotadas ilegalmente. De acordo com o documento, que foi direcionado ao juiz pelo promotor de Justiça Luciano Taques Ghignone, a solicitação é que seja promovida a aproximação prévia das crianças com a mãe biológica em um ambiente apropriado na cidade de Poá, interior de São Paulo. O local escolhido é uma sugestão da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

Pensado conjuntamente pelo Ministério Público e pelo Juíz de Direito, foi entendido que o retorno imediato sem acompanhamento das crianças não é recomendável para não afetar o estado psicológico das crianças. Elas deverão passar por um estágio de readaptação com a mãe, sob supervisão de profissionais da área da infância e juventude, de modo a evitar qualquer impacto psicológico.

CPI do Tráfico de Pessoas

O juiz Vitor Bizerra, suspeito de entregar para a adoção cinco filhos de um casal de Monte Santo, disse na CPI do tráfico de pessoas que sua decisão foi baseada em relatórios do Conselho Tutelar e do Ministério Público.

“Conselho Tutelar encampou uma coisa que já partiu dos vizinhos. A comunidade monte-santense já sabia disso. Seu Gerôncio é alcoólatra e a genitora também fazia uso de bebidas alcoólicas. Segundo ouvi dizer, também se prostituía, fazendo ponto na boate”, afirmou Bizerra aos parlamentares, em Brasília. O Conselho Tutelar declarou que nunca indicou ou sugeriu a entrega dos filhos de Silvânia e Gerôncio para adoção. Moradores de Monte Santo contaram que as crianças eram bem tratadas e negaram as acusações de prostituição à mãe.

Na CPI, Bizerra afirmou ao deputado Severino Ninho (PSB/PE) que nunca se opôs a dar entrevistas sobre o assunto. “Eu estou resolvendo algumas coisas, não estou disponível pra conversar agora”. Na CPI, o juiz afirmou que estaria sendo injustamente acusado. “Por que a figura que é exposta é a do juiz? Por que a do juiz e não a outra pessoa que é colocada como investigada?”, perguntou Bizerra aos deputados responsáveis pelo inquérito.

“Eu não tenho dúvida de que há uma organização criminosa por trás disso. Já pedimos inclusive a prisão preventiva coercitiva dessa Carmen ao juiz”, declarou o deputado federal Arnaldo Jordy (PPS/PA).

A “outra pessoa” é Carmen Topschall, que aparece como intermediária em todos os processos suspeitos de adoção na região de Monte Santo. Ela foi ouvida na CPI no dia 13 de novembro. Ela chegou à CPI acompanhada de dois advogados e com um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal e, por isso, se recusou a responder a maioria das perguntas.

 

Por Tatiana Maria Dourado/G1 BA

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