Por Eron Rezende/A Tarde
Interessado nas mentiras que contamos (e nos sacrifícios que fazemos para dizer a verdade), Bernard Attal moveu-se por seis anos. Tempo para concretizar seu primeiro longa-metragem e para aprimorar o olhar sobre o lugar em que colocava a câmera. Porque a mentira, diz ele, é o terreno rugoso pelo qual se alcança o homem.
Sua tentativa de percorrer as fissuras da condição humana, realizada através de Beto, personagem protagonista de A Coleção Invisível, será apresentada pela primeira vez no Festival do Rio, maior mostra competitiva de cinema no País, que começa nesta quinta, 27, e vai até 11 de outubro. O filme concorre com outras 11 produções ao prêmio de melhor ficção.
Beto busca um negócio fácil, ouve falar de um colecionador de gravuras raras, vê aí sua chance. A história, roteirizada por Attal e Sérgio Machado (Cidade Baixa e Quincas Berro D’Água), é adaptada do conto homônimo do austríaco Stefan Zweig (1881-1942).
Como Attal, Zweig apaixonou-se pelo Brasil – o escritor, responsável pelo clássico ufanista Brasil, País do Futuro, viveu no Rio os últimos dois anos de vida; Attal saiu da França para morar na Bahia em 2004. Como Attal, Stefan Zweig rechaçava o pessimismo.
“Zweig se desiludiu com a União Soviética, detestava o materialismo americano, mas preferia sempre o ‘sim’. Gostava de gostar do outro. Essa é uma atmosfera que está no texto e me motivou a filmar”, diz o diretor, indicando o caminho redentor que se apresentará para Beto em sua trajetória até então capital.
Cacau – No lugar da Alemanha dos anos 1920 do conto, há as ruas de hoje de Salvador e de cidades do sul da Bahia, em especial Itajuípe, com seus casarões que cambaleiam para lembrar o passado de fortuna propiciado pelo cacau.
“O conto tem um clima de queda financeira que a região sintetiza bem”, diz em entrevista por telefone o intérprete de Beto, Vladimir Brichta, que divide as cenas com Walmor Chagas (o colecionador).
“Passei parte da minha infância em contato com a potência das fazendas de cacau. Voltar e ver tudo destruído pela [praga da] vassoura-de-bruxa me ajudou a levar o personagem para um estado de observação e impacto, que traduz o momento em que ele percebe que pode ir além do próprio umbigo”, conta o ator.
Salas – Algumas semanas atrás, quando Attal assistiu à primeira cópia do longa, a satisfação submeteu-se ao que ele considera o período mais ingrato da vida de um filme: pensar a distribuição. “A questão da produção parece resolvida: a tecnologia barateou o custo de filmar. Mas não há políticas que pensem o escoamento”.
Para A Coleção Invisível, o diretor diz que espera fechar com uma distribuidora após o Festival do Rio. Mas alude, com humor, à possibilidade do pouco espaço.
“Uma vez, um jornalista perguntou a Luís Buñuel para quem ele fazia cinema, e ele respondeu que fazia para os amigos. No meu caso, eu tenho a sorte de ter muitos amigos na Bahia”.



Comente agora
Comente esta matéria