Desde quando começaram as manifestações que se espalharam por todo o país, tornou-se comum ouvir nos noticiários a expressão “bomba de gás lacrimogêneo”. Isso porque, nas ocasiões em que existiram confrontos, a arma se mostrou a principal alternativa utilizada pelos policiais para dispersar as multidões. Quando lançado, o artefato libera várias substâncias gasosas irritantes à pele, olhos e vias respiratórias. Mas algumas pessoas que estiveram expostas ao gás reclamam por terem sofrido um efeito muito intenso, causando problemas por um tempo prolongado.
(Foto: Francisco Galvão)A multiartista Ingridy Carvalho, que participou da passeata da última quinta-feira (22), quando policiais entraram em confronto com manifestantes que saíram do Campo Grande em direção à Arena Fonte Nova, acredita que a quantidade de gás lacrimogêneo que inalou é responsável por problemas que vem sofrendo na garganta. “Depois daquele dia, ela ficou muito irritada e comecei a tossir muito. O nariz ainda arde. Lembro que passei muito mal”, conta.
A experiência do relações públicas Valter Alves com as substâncias também não foi nada agradável. Ele conta que participava da manifestação que ocorria, no mesmo dia, no Vale dos Barris, onde foi surpreendido por um artefato que caiu ao seu lado expelindo grande quantidade de gás. “Naquele momento fiquei com a visão prejudicada e fiquei sem enxergar por alguns segundos. Ainda fiquei por três dias com hipersensibilidade à luz”, relata.
A partir desses dois casos, uma questão pode ser levantada: o gás lacrimogêneo pode provocar situações graves à saúde humana? De acordo com o médico pneumologista Jamocyr Marinho, em determinadas situações, pode. “Se a pessoa, por exemplo, sofrer de asma, com aquela inalação, pode ter uma crise muito forte e, a depender da predisposição da pessoa, ficar muito tempo sem receber oxigênio e até morrer”, explica.
Sobre o caso da gari da cidade de Belém (PA), que morreu na última sexta-feira (21) devido a uma parada cardíaca após inalar gás lacrimogêneo, Marinho acredita que pode haver relação entre o óbito e a exposição às substâncias. “Se ela já tinha problemas no coração [ela tomava remédios controlados para hipertensão] então pode ter sofrido a parada cardíaca pela falta de oxigênio”, diz o médico.
Segundo Jamocyr Marinho, é possível que algumas pessoas continuem a sentir efeitos provocados pelo gás, mesmo após alguns dias, como aconteceu com os manifestantes baianos exemplificados anteriormente. “É como uma pancada que a pessoa recebe em uma determinada parte do corpo e fica inchada por algum tempo. Por isso pode continuar com irritações e tosses”, observa. Mas, se os sintomas continuarem, a orientação é se dirigir a um pneumologista, em casos de tosses, ou otorrino, se afetar o ouvido e nariz.
Por Gabriel Serravalle


Comente agora
Comente esta matéria