Custo Brasil eleva gastos do setor produtivo também na Bahia

Produtos do outro lado do planeta, com distância de até 30 mil quilômetros do Brasil, chegam ao país com preços pela metade dos nossos. Infraestrutura precária é apontada por especialistas como um dos principais problemas para a indústria nacional enfrentar a concorrência.
A situação a seguir é real. Duas empresas instaladas no Polo Industrial de Camaçari gastam, em média, R$ 300 para enviar lote do produto para um cliente em São Paulo. A distância é de pouco mais de 1,9 mil quilômetros. Pois alguns países dos chamados tigres asiáticos, alguns a mais de 30 mil quilômetros e separados por dois oceanos, conseguem enviar o mesmo produto a um custo de US$ 60, que equivalem a aproximadamente R$ 136.
O cenário é apresentado pelo superintendente do Comitê para o Desenvolvimento Industrial de Camaçari (Cofic), Mauro Pereira, na tentativa de mostrar o tamanho do problema enfrentado pela indústria nacional.
O Brasil tem perdido competitividade. E isso custa caro. No caso da indústria química e petroquímica, principal cadeia instalada em Camaçari e responsável por aproximadamente um terço da economia baiana, a inexistência de uma política industrial capaz de enxergar o cenário como um todo pode custar o futuro, apontam especialistas.
O déficit na balança comercial de produtos químicos, que acontece quando o volume de produtos que vem de fora é superior ao que é vendido lá fora, dá a ideia de todas as riquezas que o Brasil perdeu nos últimos dez anos – entre elas receitas para o setor produtivo e governos, além de empregos e renda para a população.
Em dez anos, o saldo negativo do Brasil passou de US$ 6,2 bilhões para US$ 32 bilhões, o que corresponde a quase 20% do faturamento da atividade no país, de acordo com dados do relatório Desempenho da Indústria Química, divulgado pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).
Para Mauro Pereira, é necessário estabelecer uma política industrial no país capaz de “enxergar o todo”, no lugar de buscar soluções isoladas para o problema. “Existem situações no dia a dia que corroem a competitividade da indústria, a começar pela própria infraestrutura, que é um caso sempre crítico”, afirma.
Mais exportação
Infraestrutura eficaz tem impacto direto na economia dos países. Estudo realizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) revela que, no caso do Brasil, a redução de 1% nos custos de transportes seria suficiente para ampliar o volume de exportações do país em até 4%.
“Acredito que nós perdemos uma década de oportunidades de exportações, de geração de renda para o país. Pode até parecer dramático, mas para mim isso é um tragédia”, afirma o economista Maurício Mesquita Moreira, assessor-chefe de Comércio Exterior do BID, que coordenou trabalho a respeito dos impactos da infraestrutura nas exportações de Brasil, Chile, Peru e Colômbia.
De acordo com o superintendente do Cofic, esse resultado é um dos reflexos da ausência de uma política industrial, como acontece na Alemanha e no Japão. “(A ausência da política) atrapalha na atração, mas torna muito mais difícil a manutenção dos investimentos”, diz.
Infraestrutura
Maurício Mesquita defende o uso de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes) para a modernização da infraestrutura do país, no lugar do financiamento de projetos empresariais. Segundo ele, 70% dos projetos empresariais poderiam ter sido financiados em condições similares a partir de outras fontes.
O economista lembra que em 2013 o total de recursos utilizados pelo banco para financiar empresas foi de R$ 186 bilhões, volume suficiente para dar conta do Plano Nacional de Logística (PNL), lançado pelo governo brasileiro, e que “ainda não mudou a realidade” do país.
De acordo com dados oficiais, o total de investimentos previstos no plano é de R$ 133 bilhões para a construção de 7,5 mil quilômetros de ferrovias e de 10 mil quilômetros de rodovias.
Para Mesquita, há clareza de que os investimentos são necessários, “o problema acontece na hora de implementar as medidas”. O economista do BID acredita que existe uma ideia de que não faltam recursos. “Isso levou o governo a aumentar gastos numa série de áreas. A crise reforçou o viés intervencionista. Há claramente um problema de prioridades”.
Desafio da cadeia
O professor de Economia da Universidade Federal da Bahia Oswaldo Guerra ressalta a importância da matéria-prima para a indústria petroquímica. “O Brasil não tem produção suficiente de nafta, então parte dela é importada. Consequentemente, quando sobe o preço do petróleo, aumentam os custos da indústria”, explica.
Guerra acredita que uma mudança no cenário dependeria do desenvolvimento do pré-sal, que ampliaria a oferta de petróleo, e de novos investimentos no refino, que ampliaria a oferta de gasolina e nafta no país.
“Explodiu no Brasil a produção automobilística e, consequentemente, explodiu a demanda por gasolina para abastecer os carros. Mas os investimentos em refino de petróleo não acompanharam o movimento. Então o que se verifica é que o país é quase autossuficiente na produção de petróleo, mas não na produção de derivados”, diz Oswaldo Guerra.
Matéria-prima é decisiva para o futuro do Polo
A indefinição quanto ao preço da nafta, principal matéria-prima da indústria petroquímica brasileira, pode trazer sérios prejuízos para o país, avisa o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química, Fernando Figueiredo. O contrato para o fornecimento do produto, entre a Petrobras e a Braskem, que venceria no final de agosto, foi prorrogado até o final de fevereiro.
“Essa situação de indefinição é muito preocupante para a indústria química brasileira porque em nosso negócio seis meses não significam muita coisa. Não dá para viver de sobressalto”, avalia Figueiredo.
O problema é que a Petrobras passou a converter parte da nafta em gasolina para reduzir a necessidade de importar o produto. Com isso manteve estável o preço do combustível, mas desajustou o mercado de nafta.
“Não faz nenhum sentido que o custo adicional das importações do combustível seja passado para a nafta. Pela importância que tem para a atividade, os preços das matérias-primas podem ter impactos muito positivos ou muito negativos”, diz. Segundo Fernando Figueiredo, a indústria brasileira já vivencia os reflexos de uma gestão equivocada nos preços de matérias-primas. “Já existe um problema na área de gás por conta dos preços. Em 2010, existiam no Brasil 22 empresas que utilizavam. Hoje são sete. Sabe quem mais perde com isso? O país”, afirma Figueiredo.
Infraestrutura portuária é principal gargalo na Bahia
Quem conhece a realidade da indústria baiana sabe que o maior desafio de infraestrutura enfrentado pelo setor é a operação portuária. “O Porto de Aratu, que é um porto graneleiro, em que as principais partes foram concebidas para atender as movimentações de cargas produzidas em Camaçari, não realizou investimentos para acompanhar o desenvolvimento do Polo”, explica o economista e presidente do Instituto Miguel Calmon de Estudos Econômicos e Sociais (Imic), Adary Oliveira.
“Os navios chegam para descarregar e enfrentam uma longa espera. Pelos contratos, a partir de um determinado tempo de atraso, os navios podem cobrar o que se conhece como demurrage (uma multa por atraso)”, explica Oliveira, acrescentando que a espera e os custos adicionais encarecem o processo.
O professor Oswaldo Guerra defende a infraestrutura como estratégia para tornar a atração de investimentos menos dependente de incentivos fiscais. “O incentivo é um paliativo, chega um dia em que ele acaba. Se as plantas industriais estiverem só ancoradas nos incentivos, vai chegar um momento em que o cara vai fechar as portas e vai embora. É preciso resolver os gargalos”, explica.
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Por Correio 24H










