Nova Canaã: Comunidade Quilombola da Lagoinha já tem 126 agricultores familiares alfabetizados pelo Topa

Ter a liberdade de escrever seu próprio nome, ajudar os netos a ler os livros da escola, ler a embalagem de produtos utilizados no almoço da família ou simplesmente garantir o atendimento bancário sem grandes dificuldades são ações comuns para alguns. No entanto, representa um grande sonho, realizado nos últimos três anos, para 126 pessoas da Associação de Agricultores Familiares da Comunidade Remanescente de Quilombo da Lagoinha, em Nova Canaã, Bahia. Os alfabetizados têm entre 18 e 90 anos e reconhecem o poder que o conhecimento garante, bem como as diversas melhorias proporcionadas ao se unirem em associação.
Nem sempre esse sonho de aprender a ler e escrever esteve perto desses agricultores e suas famílias. A alfabetização só se tornou possível a partir do Programa Todos pela Alfabetização (Topa), desenvolvido pela Secretaria da Educação do Estado da Bahia, em parceria com o Governo Federal, prefeituras e movimentos sociais e sindicais. O Topa chegou à Comunidade Quilombola da Lagoinha em 2015, primeiro ano de adesão, numa região com alto índice de analfabetismo e dificuldade de acesso à cidade de Nova Canaã, distante 25 quilômetros.
Neste ano, o Topa já beneficia 126 agricultores na Comunidade Quilombola da Lagoinha. Os professores (alfabetizadores) são da própria região e têm formação mínima no Ensino Médio. Eles se reúnem quinzenalmente para trabalhar temas como português, matemática e integração social. Segundo Romilce Rodrigues, coordenadora do Programa Topa na comunidade, os relatos demonstram o aumento da autoestima dos agricultores e seus familiares. “Eles já conseguem ler e escrever bilhetes para os familiares que moram distante, leem bulas de remédios e se sentem orgulhosos disso”, comentou.
COMUNIDADE QUILOMBOLA
Fator que igualmente contribui para a melhoria da autoestima dos agricultores são as conquistas advindas da criação da Associação de Agricultores Familiares da Comunidade Remanescente de Quilombo da Lagoinha, em 2007. Por meio da associação eles têm acesso também ao programa Cultura Viva com incentivos na participação em programas como Ação Griô, Topa e convites para apresentarem a cultura dos remanescentes quilombolas em eventos.
A lavradora Irene Silva, de 42 anos, conta que nasceu em uma família de 13 filhos e teve muitas dificuldades na infância, desde alimentação até o estudo que era raro. “A comunidade não era conhecida e nem reconhecida, mas vieram muitas mudanças com o reconhecimento como Comunidade Quilombola. Chegou a energia elétrica, que ajudou muito e nós continuamos querendo que o progresso aconteça”, afirmou.
Igualmente feliz com o Topa Valdenor Florêncio de Araújo, lavrador de 74 anos, explica que trabalhou desde criança para ajudar a mãe viúva a criar os irmãos. “Hoje o Topa permite que os idosos estudem. Antes o trabalho da roça era muito sofrido, nem agasalho para trabalhar no frio e na chuva a gente tinha. O fogão de lenha é que ajudava a secar e esquentar”, narrou destacando que segue muitos projetos da associação e reconhece muitos ganhos depois dela.
A coordenadora Romilce Rodrigues, que também é Educadora voluntária no Programa Ação Griô e Assistente de Coordenação no projeto Cultura Viva na Bahia, explica que o objetivo do trabalho com a comunidade é garantir o direito à alfabetização a todos e ao mesmo tempo realizar com elas um trabalho de valorização da história das tradições quilombolas.
A alfabetização e a criação da associação também abriram portas para Ivanete Fonseca, lavradora de 45 anos. “Nós nem sabíamos o que era associação, mas depois dela criada nossa vida melhorou. Hoje sabemos quais são nossos direitos, representamos a comunidade em muitos eventos fora da cidade” disse. O desejo em preservar a cultura da comunidade Lagoinha é defendido por Ivanete que narra com alegria que eles cantam samba de roda, dançam com as outras pessoas e recebem muitos elogios após as apresentações. “Temos que seguir a cultura que nós temos, como a trança da fita, o samba de bumba e o samba de roda” ressaltou.












