Estrangeiros têm medo da Baía de Guanabara, diz velejador brasileiro

Para Thomas Lowbeer, da 49er, poluição na “Rua Bariri” da vela não impediria regatas olímpicas. Parceiro do barco, Dante Bianchi se incomoda com assunto e elogia local
Em meio à possibilidade da mudança das regatas da vela dos Jogos Olímpicos para fora da Baía de Guanabara, atletas da equipe brasileira têm evitado falar sobre o assunto. A Federação Internacional de Vela acenou com a mudança, caso sinta que a poluição possa comprometer as regatas em 2016. Ao mesmo tempo, países como Grã-Bretanha e Austrália fazem pressão para levar as disputas para alto mar, não só por causa do lixo, mas também para tirar a vantagem dos brasileiros em relação ao conhecimento das intrincadas linhas de maré da Baía de Guanabara.
Depois da disputa da etapa da Copa do Mundo em Hyeres, na França, no fim do mês passado, os velejadores brasileiros se reuniram e decidiram, por enquanto, não falar sobre o assunto. No início da semana, a dupla da classe 49er, Dante Bianchi e Thomas Lowbeer, recebeu o GloboEsporte.com no Iate Clube do Rio para falar sobre o melhor momento da dupla -o bronze no Trofeu Princesa Sofia, no mês passado -, a rotina de Dante como médico, a disputa pela vaga para os Jogos com Marco Grael e Gabriel Borges, e a Baía de Guanabara, claro.
Dante não escondeu o incômodo ao ser perguntado sobre a qualidade da água naquele dia. Primeiro, disse que não falaria sobre o assunto. Em seguida, apontou a Baía de Guanabara como melhor lugar do mundo para velejar. E criticou a postura dos estrangeiros.
– Eles querem tirar a regata da Baía porque não querem velejar aqui dentro. Vão se dar mal. Para mim este é o melhor lugar do mundo para velejar. Posso velejar de sunga. Imagina ter que botar o pé na água com cinco graus, como lá fora? Na Dinamarca a água era transparente, mas cheia de água viva. Na Finlândia, um espetáculo, limpinha, mas as gaivotas faziam fila para comer no McDonalds porque não tem peixe.
Aqui você vê peixe toda hora. Ainda bem que morre, senão ia transbordar de peixe – disse Dante. A poluição das Baía de Guanabara tornou a vela o esporte mais falado dos Jogos do Rio. A meta de tratar 80% de esgoto da região, que faz parte do dossiê de candidatura da cidade, não será cumprida. O fato de a imprensa procurar os atletas apenas para falar sobre poluição incomoda o campeão pan-americano de 2007.
– (A água) Está melhor do que há 15 anos. Agora as reclamações são porque antes vocês (da imprensa) estavam reclamando de outra coisa. Antes a mídia não falava porque não queria. Poderia ter falado antes. Voltem a falar sobre corrupção, vai ser melhor. Já não falavam de esporte, agora querem falar da água. Acabamos de ver uma tartaruga – disse Dante.
Para Thomas, o desempenho do Brasil nos últimos tempos vem assustando potências da vela – em Hyeres, o país foi o segundo melhor no quadro de medalhas. Ele chama a Baía de Guanabara de “Rua Bariri” da vela brasileira, em alusão ao alçapão do Olaria, e vê um claro motivo para a mudança das regatas apenas para o alto mar – atualmente são três raias dentro e duas fora.
– A questão da água para essas federações é uma questão de medalha.Eles não têm conhecimento suficiente daqui e se sentem mais seguros velejando lá fora. Essa aqui é a nossa Rua Bariri. E eles têm medo disso. O Brasil ficou em segundo no quadro de medalhas da última etapa da Copa do Mundo. Provamos que temos uma equipe forte. Se a gente continuar a desenvolver a nossa técnica em outras condições de vento, a gente vai ter um bom resultado em 2016.
O que eles querem fazer é tirar a nossa vantagem. É muito difícil velejar aqui. O Rio de Janeiro tem todas as melhores condições para velejar no mundo. Tanto que as competições mais importantes já aconteceram aqui. A água nunca foi um impeditivo para ninguém – disse Thomas.
A presença de velejadores estrangeiros no Rio é frequente desde que a cidade foi escolhida sede das Olimpíadas. Também são comuns treinos compartilhados, com barcos brasileiros e de outros países trocando experiência.
– Eles vêm aqui para aprender o nosso conhecimento e a gente a técnica deles – disse Thomas.
Para Dante, não há muita vantagem técnica dos brasileiros dentro da Baía de Guanabara:
– Ficamos mais confiantes aqui, é só. Não passamos tudo para eles. Mas se eles passarem a regulagem do barco deles, eu passo a linha de maré.
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Por Globo Esporte.com











